“Voltei do segundo show pálida, trêmula, mas mantendo a pose no meu deslumbrante robe azul. Subi no elevador com uns africanos que se entreolhavam, tentando localizar de que tribo são as senhoras que andam de robe de veludo e havaianas.”
“Chega agora, Adriana, menos, bem menos, muito menos. Fechar os olhos, fechaaando deeeevvaaaaaggaaaaar. Fechei. Ok? Fechados. Cores. Cores. Cores. Cores meio estranhas, aliás, que nunca vi, não sei de onde são.”
“Desculpa, mas não deu continuidade. E eu poderia até jurar que esses cenários e coxias são os bastidores da minha mente, minha nossa que medo, o que é isso que estou dizendo? Isso parece uma alucinação... Désolée, ma chère, isso é uma a-lu-ci-na-ção.”
“Por que não aproveito a onda já que nunca experimentei, porque nunca quis, aliás, porque sempre tive medo, e relaxo de uma vez por todas? Não levei anos para suportahahar abóboraahahahaha e hoje adoro? Adoro não, amo, cozida, assada, a sopa é o melhor hahahahahaha. Sou disciplinadahahahahaha por que não poderia começar a gostar de passar noites seguidas acordada hahahahahaha suando frio hahahahahaha batalhando contra uma mente que não me obedece? Parecendo nisso, aliás, com a minha gata, Bong Lé? Hahahahahahaha. Sim, isso, vamos lá, hahahahaha, um, dois, três: pensando em Bong Lé! Mmmmvfhhahahahahahahahahaha!
“Minha língua segue enlouquecendo.
- Zue? Eu, Zé novo. Guandu zocê oujir esssse recazo, zem ágüe, bor zavor?”
“- Recepção, bom-dia, posso ajudar?
- Eherzz…
-Sim, está? Bom-dia?
-Zom zia, é a Azriana Galganhoddo…
-E como vai a menina, está bem?
-Dão moito. A zenhora bor agazo gonhece a Zuely, minia brodudora, zão gonhece?
-Sim, sim, pois, conheço, sim.
-Zabe zizer ze ela ezdá domano o begueno aumozo? Dão a engondro no guardo e esdou me zendino um bougo mal, gosdava de ir bro hosbidal.
-Mas quer ir mesmo de táxi ou de ambulância?
- Dão zei, o gue a zenhora aja? Dem limouzine?”
“Na sala de espera da emergência – o que pra mim é antítese, mas, com o novo acordo ortográfico, vai-se lá saber...”
“Pode vir, na forma de raio, trovão e tempestade, que serei teu Waly Salomão em Jequié, saindo pra chuva justo na direção do raio, abrindo ainda mais a camisa no peito e gritando ‘eu sou mais forte, sou filho do Norte, comigo ninguém pode’!”
“Dei uma choradinha de medo, acordando do sonho mau, mas é diferente daquele choro de verdade, que lava a lama, que diluiria a Coisa provavelmente ralo abaixo, inundaria o quarto de lágrimas e faria de mim Alice (ou até Ofélia), que é choro mesmo, não chororô. Mas este, o choro mesmo, não me sai, vem, não consigo, e encaro então como sendo algo pelo que preciso passar, no seco, e pronto.”
“Tenho imensa pena de saber que Portugal está lá fora enquanto me encontro (ou me perco) encastelada dessa maneira, concentrando energias e dando tudo de mim para poder estar de pé no palco. Ou sentada, que seja, mas no palco, cara a cara com a multidão e seu deserto.”
“No cais, embarcando com meus meninos no bote, as pessoas da produção local conversam, determinando o futuro do passeio:
- Temos passagem de som no teatro antes do concerto então estarão de volta às três da tarde, ok?
Outra pessoa da produção diz
- Sim, sim , com certeza, estarão de volta às três...
Que é quando o capitão situa:
- Não, não temos certeza se estaremos de volta às três, nem se haverá baleias e nem mesmo se voltaremos, se é que algum viajante retorna, isto aqui é o mar, ó pá, não temos certeza de nada.
Não considero conveniente cair em prantos abraçada ao capitão, aliás, acho que o pranto nem sairia, mas vontade não me faltou, viu?”
“Em alto mar que meus problemas desaparecem, ficam íntimos, que minha condiçãozinha humana se revela para mim, limitadinha, mas em êxtase, não em pesadelos grotescos. Ou simples fantasmas. Ou Coisa que o valha. Viver não é preciso. Splashhh, mais água salgada na cara, iuhu, delícia. Domenico percebe que estou emocionada e pergunta:
Moby Dick é o livro da sua vida?”
“Lembrei que diz-se que para cada sentimento humano, para cada mais sutil sensação, para qualquer situação possível nesta vida, já há uma música correspondente no cancioneiro brasileiro. Pensei nisso porque me veio à cabeça uma canção mais antiga, e era incrível como se encaixava perfeitamente e traduzia (sem perdas) o meu estado naquele momento. No dia seguinte, no segundo show do Porto, como sou intérprete de forte inclinação existencialista, incluí no alinhamento a bela melodia dizendo ‘eu queria tanto estar/ no escuro do meu quarto/ à meia-noite, à meia-luz, sonhando/daria tudo por meu mundo e nada mais."